Os assassinatos de Cheshire

A família Petit, composta por William Petit, sua esposa Jennifer Hawke-Petit, e suas duas filhas, Hayley (17 anos) e Michaela (11 anos).

Cheshire é uma cidade localizada no estado de Connecticut, Estados Unidos. Em 2007, Cheshire era uma comunidade suburbana tranquila, conhecida por seu ambiente acolhedor e seguro, com uma população de aproximadamente 29 mil habitantes. A cidade é caracterizada por sua forte sensação de comunidade, boas escolas e uma qualidade de vida considerada alta.

Jennifer Hawke-Petit nasceu em 26 de setembro de 1958. Ela era uma enfermeira pediátrica e atuava como coordenadora de enfermagem em uma escola para crianças com necessidades especiais. Ela era muito dedicada ao seu trabalho e era respeitada por seus colegas e pela comunidade. Casada com William Petit, um endocrinologista, juntos eles tinham duas filhas: Hayley, de 17 anos, e Michaela, de 11 anos.

Hayley nasceu em 15 de outubro de 1989. Ela era uma estudante talentosa e dedicada, cursando o ensino médio na Cheshire High School. Hayley era conhecida por seu excelente desempenho acadêmico. Ela era uma atleta destacada e capitã do time de lacrosse da escola. Ela também participava de várias outras atividades esportivas e clubes escolares. Hayley havia sido aceita na Dartmouth College e estava planejando estudar medicina, seguindo os passos de seu pai.

Michaela nasceu em 17 de novembro de 1995. Ela era aluna do ensino fundamental e era conhecida por sua inteligência e amor pela aprendizagem. Ela era uma excelente estudante, dedicada e curiosa. Michaela tinha uma paixão especial pela culinária e gostava de preparar refeições para sua família. Ela também adorava animais e sonhava em se tornar veterinária quando crescesse.

A família Petit era bem conhecida e ativa na comunidade de Cheshire.

O crime

Na manhã do dia 22 de julho de 2007, um domingo, a família Petit foi à igreja. Na noite daquele mesmo dia, Jennifer e Michaela foram a um mercado local comprar ingredientes para uma receita que Michaela queria cozinhar. Sem saber que estavam sendo observadas, mãe e filha foram escolhidas como alvos e seguidas até em casa por Joshua Komisarjevsky.

Joshua nasceu em 10 de agosto de 1980. Teve uma infância problemática, marcada por abuso sexual e instabilidade familiar. Ele foi adotado ainda bebê, mas teve dificuldades de adaptação e problemas de comportamento desde jovem. Aos 22 anos ele já havia sido preso por 18 invasões domiciliares e tinha um histórico criminal que incluía arrombamentos, roubos e agressão sexual.

Após seguir a família até sua casa, Joshua iniciou uma conversa por mensagens de texto com Steven Hayes.

Joshua: “Estou ansioso para começar. Preciso de uma margarita logo.
Hayes: “Ainda estamos juntos?
Joshua: “Sim.”
Hayes: “Logo?”
Joshua: “Estou colocando a criança para dormir, segure seus cavalos”.
Hayes: “Cara, os cavalos querem se soltar. LOL.”

Steven Hayes nasceu em 30 de maio de 1963. Hayes tinha um longo histórico de crimes, incluindo roubos e assaltos. Ele passou grande parte de sua vida adulta entrando e saindo da prisão por diversos crimes.

Hayes conheceu Joshua Komisarjevsky em um programa de reabilitação para criminosos. Juntos, eles planejaram e executaram o ataque à família Petit.

Nas primeiras horas do dia 23 de julho de 2007, Hayes e Komisarjevsky invadiram a casa da família Petit com a intenção inicial de roubar. Eles conseguiram acessar a casa através de uma porta destrancada.

William Petit estava adormecido no sofá da sala, com seu jornal ainda sobre o peito. Ao se deparar com William, Joshua usou um taco de beisebol que estava próximo a escada de acesso ao porão da casa, para golpea-lo na cabeça diversas vezes.

Foi muito estranho”, disse William. “Lembro-me de pensar e sentir: ‘Ai! Ai! Ai!’”

“A próxima coisa que eu soube”, disse, “eu estava sentado no meio do sofá com a cabeça baixa. Estava escuro. Havia algo quente escorrendo pelo meu rosto.”

Após ser golpeado, William foi levado ao porão da casa e amarrado nos pulsos e tornozelos com braçadeiras e uma corda.

Joshua e Hayes subiram as escadas e logo encontraram Jennifer e suas duas filhas. Elas foram amaradas junto a suas camas e uma fronha foi colocada sob a cabeça de cada uma delas.

Com todos os membros da família Petit contidos, os criminosos vasculharam a casa em busca de dinheiro e de um suposto cofre. Mas não havia cofre.

Insatisfeitos, Hayes obrigou Jennifer a sacar 15 mil dólares no banco. As 9 horas da manhã daquele mesmo dia, Hayes levou Jennifer até a agência local do Bank of America, onde Jennifer dirigiu-se ao caixa para descontar o cheque. Hayes a aguardou do lado de fora. A gerente Mary Lyons autorizou a transação e Jennifer saiu do banco com o dinheiro em mãos.

Em entrevista ao USA Today em 2017, Mary disse:

“Ela me explicou que sua família estava sendo mantida presa e, desde que ela pegasse o dinheiro e voltasse para casa, todos ficariam bem”, disse Lyons. “Eu simplesmente soube pelo olhar em seu rosto e pelo olhar em seus olhos que ela estava dizendo a verdade. Seus olhos me disseram — um olhar de uma mãe para outra mãe.”

Assim que Jennifer saiu do banco, Mary ligou para a polícia. A polícia de Cheshire respondeu ao relatório do banco avaliando a situação e estabelecendo um perímetro de veículos em torno da casa, sem revelar sua presença.

Jennifer e Hayes retornaram para casa. Joshua havia abusado sexualmente de Michaela, de 11 anos, o que ele mais tarde confessou quando interrogado. O ataque a menina foi registrado no telefone celular do criminoso. Testes forenses posteriores, mostraram que havia alvejante nas roupas de Michaela, indicando que Joshua pode ter tentado eliminar as evidências de DNA. 

Hayes estuprou Jennifer após uma suposta provocação de Joshua. William que estava amarrado no porão da casa, pode ouvir a agressão contra sua esposa. Ele gritou e ouviu um dos invasores dizer: “Não se preocupe. Vai acabar tudo em alguns minutos.” William então conseguiu se libertar das cordas e rastejar até o quintal de um vizinho para pedir ajuda.  Mais tarde, em entrevista a FoxNews ele disse: “Pensei que era agora ou nunca, porque na minha mente, naquele momento, pensei que eles iriam atirar em todos nós”.

Enquanto Hayes estuprava Jennifer no chão da sala de estar, Joshua descobriu que William havia escapado. Foi nesse momento que a invasão a casa dos Petit tomou novas proporções.

Hayes então, estrangulou Jennifer até a morte. Os criminosos encharcaram seu corpo e partes da casa, incluindo os quartos de Michaela e Hayley, e as próprias garotas, com gasolina. Após o início do incêndio, os criminosos fugiram do local.

Casa da Família Petit após o incêndio ser controlado.

Hayley conseguiu se libertar de suas amarras e saiu correndo de seu quarto para o corredor, onde desmaiou e morreu por inalação de fumaça. Seu corpo foi encontrado no topo da escada. Queimaduras de terceiro e quarto graus em seus pés indicaram que ela chegou muito perto do fogo. O médico legista que realizou a autópsia em Hayley não conseguiu determinar se as queimaduras ocorreram antes ou após a sua morte.

Michaela, assim como Hayley, veio a óbito por inalação de fumaça. O corpo dela foi encontrado em seu quarto, na cama, com as mãos amarradas e a parte inferior do corpo fora da cama. Assim como com sua irmã mais velha, as queimaduras de Michaela podem ter ocorrido enquanto ela ainda estava viva.

Quando a polícia chegou à casa da família Petit, eles encontraram William na casa do vizinho, gravemente ferido. Eles não sabiam se ele era uma vítima ou um dos invasores. Enquanto isso, Hayes e Joshua fugiram da casa no carro da família. Eles foram avistados pela vigilância policial, perseguidos e presos a um quarteirão de distância após baterem em um carro da polícia.

O horror perpetrado na casa da família Petit durou cerca de sete horas.

Prisão e julgamento

Joshua Komisarjevsky e Steven Hayes

Após a prisão, tanto Hayes quanto Joshua confessaram os assassinatos. Em seus depoimentos, cada agressor alegou que o outro era o cérebro por trás da invasão domiciliar. Joshua também tentou culpar William Petit pelos assassinatos. Em seu diário, Joshua chamou William de “covarde” e afirmou que poderia ter salvado sua família se quisesse. O diário mais tarde foi usado como evidência.

Joshua e Hayes foram julgados separadamente.

Em 2010, Steven Hayes foi condenado à morte. Steven Hayes foi julgado e considerado culpado por múltiplas acusações, incluindo assassinato, sequestro, agressão sexual e incêndio criminoso. Em uma entrevista coletiva após o veredito, William Petit declarou: “Michaela era uma garotinha de 11 anos torturada e morta em seu próprio quarto, cercada por bichos de pelúcia. Hayley tinha um grande futuro. Ela era uma pessoa forte e corajosa, e Jennifer ajudou muitas crianças.”

Após o julgamento de Hayes, pela primeira vez na história do estado de Connecticut, o poder judicial do estado ofereceu assistência de stress pós-traumático aos jurados, que serviram durante dois meses no julgamento, pois haviam sido obrigados a olhar para imagens perturbadoras e a ouvir testemunhos terríveis.

Em 2 de dezembro de 2010, Hayes se desculpou pela dor e sofrimento que causou à família Petit e acrescentou que: “A morte para mim será um alívio bem-vindo e espero que traga um pouco de paz e conforto para aqueles que tanto machuquei.”

Em dezembro de 2011, Joshua Komisarjevsky também foi condenado à morte. Ele foi julgado e considerado culpado por múltiplas acusações, incluindo assassinato, sequestro, agressão sexual e incêndio criminoso.

Trechos do diário de Joshua foram apresentados no tribunal.

“Eu não sou um anjo, eu nunca aleguei ser. As cicatrizes na minha alma sempre me definiram como diferente dos outros.”

No diário, Joshua negou ter estuprado Michaela, mas admitiu ter abusado sexualmente dela.

Joshua disse que “se ressentiu” da implicação de que ele estuprou Michaela e escreveu que ele a “poupou daquele grau de desmoralização”. “Em uma demonstração vulgar de poder, eu ejaculei nela”.

“Quanto ao porquê? Foi o acúmulo de anos de agressão reprimida”, ele escreveu.

Joshua também escreveu no diário que tirou fotos de Michaela e iria usá-las para chantagear os pais dela.

O júri viu 8 fotos, tiradas do telefone de Joshua. Em duas fotos, Joshua foi fotografado nu e posando sugestivamente. Cinco mostravam uma jovem mulher com os braços amarrados acima da cabeça, com um pano sobre o rosto e um close de sua calcinha.

A oitava foto era de uma mulher mais velha, com as pernas abertas.

“O que eu não estava preparado era para que meus demônios levassem a melhor sobre mim”, ele escreveu.

Ele também escreveu sobre William e suas ações no diário.

“Se você não quer defender sua família, então arrisque-se com o criminoso enquanto a polícia fica do lado de fora e segue o protocolo”, ele escreveu.

“Hayley é uma lutadora. Ela tentou continuamente, uma e outra vez, se libertar”, ele escreveu. “Michaela estava calma. A coragem da Sra. Petit era, é, para ser respeitada. Ela poderia ter ficado dentro do banco, onde estava segura.”

“O Sr. Petit é um covarde, ele fugiu quando sentiu que sua própria vida estava ameaçada”, escreveu Joshua. “Várias e várias vezes eu dei a ele a chance de salvar sua família.”

Jogando parte da culpa em Hayes, Joshua escreveu: “Quando Steve tirou a vida da Sra. Petit, ele levou isso a um nível totalmente novo”.

“Eu sou o que sou e não dou desculpas”, ele escreveu. “Eu sou um criminoso com uma mente criminosa, e minha sentença de morte prevista será uma sentença de misericórdia.”

Ele também escreveu: “Não estou orgulhoso do resultado de 23 de julho. Michaela, anjo dos meus pesadelos. Minha dor não se compara à sua. Como eu poderia ter virado as costas ao sair por aquela porta sabendo do seu medo e tristeza?”

“Michaela, Hayley, Jennifer – perdoem-me, por favor”, ele escreveu. “Estou condenado, tirem minha vida.”

Joshua fez uma declaração durante a audiência de sentença. Ele falou sobre a vergonha, a decepção e a mágoa que causou, dizendo: “Nunca encontrarei paz interior. Minha vida será uma continuação da mágoa que causei. O relógio está correndo e tenho uma dívida que não posso pagar.” Embora ele reconhecesse ter participado do crime, ele insistiu que não pretendia matar ninguém, dizendo: “Milhões me julgaram culpado de crimes capitais que não cometi. Eu não pretendia que aquelas mulheres morressem. Elas nunca deveriam perder suas vidas. Não preciso de doze pessoas para me dizer do que sou culpado ou inocente. Nenhuma delas estava lá naquela manhã. Eu sei das minhas responsabilidades. Eu as assumirei como deveria. O que não posso fazer é reivindicar a responsabilidade pelas ações de outro.” Ele falou sobre como o julgamento o afetou, dizendo que havia se tornado “bastante confortável diante do ódio e da intolerância” e disse que o júri que recomendou a pena de morte para ele “acreditava que eu era tão inútil que até minha própria existência é considerada intolerável.”

A sentença de morte de Joshua e Hayes foi comutada para prisão perpétua sem direito a liberdade condicional em agosto de 2015, quando o estado aboliu a pena de morte.

Petit Family Foundation

Em 2012, William se casou novamente com a fotógrafa Christine Paluf.

Ambos se conheceram enquanto Christine trabalhava como voluntária para a Petit Family Foundation, instituição de caridade criada por William em memória de sua falecida esposa e filhas. A fundação ajuda a educar jovens, especialmente mulheres, nas ciências, melhorar a vida daqueles afetados por doenças crônicas, e oferece apoio aos esforços para ajudar e proteger aqueles afetados pela violência.

A mãe de Jennifer, Marybelle Hawke, disse que sua família acolheu o noivado e encorajou William a encontrar paz e alegria em sua vida. A irmã de Jennifer estava entre os convidados do casamento. Uma bênção escrita pelo pai de Jennifer, o Reverendo Richard Hawke, foi lida no casamento.

Em novembro de 2013, o casal teve um filho. Ele também se chama William.

William Petit com sua esposa Christine Paluf e o filho do casal, William Petit III.
Posteriormente, a casa da família foi demolida e um jardim memorial foi criado em seu lugar, repleto de flores e uma placa com os dizeres “Três Anjos”.

Fontes de pesquisas:

https://www.usatoday.com/story/news/2017/07/17/cheshire-connecticut-home-invasion-murders-10-years-later/483863001

https://people.com/archive/cover-story-horror-in-the-night-vol-68-no-7

https://www.nbcnews.com/id/wbna39134752

https://www.cbsnews.com/newyork/news/med-exam-resumes-home-invasion-testimony